quinta-feira, 2 de junho de 2016

A mulher que restou

Sabe essa mulher que restou depois de mais uma separação? Então. Eu olho pra ela com todas essas feridas à mostra e fraturas expostas e percebo: ela tá muito mais inteira agora.

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Minha vida está num lugar onde já esteve outras vezes e ao mesmo tempo onde eu nunca estive na vida. Se por um lado eu tenho a sensação de estar me repetindo e me repetindo e me repetindo, por outro, tudo parece novo. Ou velho, mas diferente. Eu já conheço esse lugar, tudo me é familiar, exceto eu mesma.
Eu saí despedaçada de um longo relacionamento porque, ao que tudo indica, eu não consigo sair de outro jeito. Ou não conseguia. Ainda é cedo para dizer. Até hoje foi assim: eu me dando inteira, me partindo ao meio e depois catando os meus caquinhos pelo chão. Só que, dessa vez, eu não consegui juntar todos os cacos. Cheguei a tentar colar os pedaços que trouxe comigo um monte de vezes. Era o que eu sempre fazia. Me colava aqui, me costurava acolá, fazia uma emenda com os fios soltos e voilà, ficava razoavelmente funcional outra vez para amar.
Só que, dessa vez, os pedaços de mim que ficaram pelo caminho eram de tal forma essenciais que nada pôde ser feito. Ficou faltando um monte de cacos para colar, de retalhos para costurar e fios para ligar. Não teve como dar jeito. O que se perdeu em mim, se foi para sempre. Para nunca mais.
Deixei mobília, objetos pessoais, peças de roupas íntimas e o que eu era para trás. O homem que eu amei conheceu uma mulher que homem nenhum voltará a conhecer. Deixei ela lá, para ele continuar fazendo o que bem entender dela. Ferir. Amar. Maldizer. Possuir. Ela já era muito mais dele do que minha.
Como pude ter sido tanto de alguém e tão pouco minha? A parte que ficou de mim sempre questiona isso. Me indaga, magoada. Peço perdão a ela todos os dias. Ela ainda não aceita. Por enquanto só se ressente. A parte que ficou é mais intransigente do que eu gostaria que fosse. “É para o seu próprio bem” – ela se defende.
Os buracos que antes me doíam de maneira aguda, as lacunas que jamais voltarão a ser preenchidas, as feridas que ficaram abertas, me deixando febril e inflamada passaram a incomodar menos quando parei de urrar de dor. Quando silenciei, deixei de ouvir o eco que fazia o meu grito estridente no vazio que ficou. Ainda dói. Vai doer por mais algum tempo, mas eu aceitei a dor. Já desisti de ficar tentando juntar os cacos que me faltam. Eles sempre vão me faltar, mas não necessariamente vão me fazer falta para sempre. Fazem menos agora que desisti de me emendar.
E eu já não sei se tenho interesse em recuperar o que eu era. Prefiro deixar tudo pra ele, sem divisão de bens. O que eu era vai morrer com ele, a menos que ele decida doar para alguém. Não importa mais.
Uma vez eu disse a ele que não tinha heranças para deixar depois que eu partisse dessa para melhor. Eu estava enganada. Ainda não havia me dado conta do valor de tudo que ele herdaria. Ele ficou com tudo que eu perdi. E tinha também um bocado de coisa bonita e valiosa ali. Tinha a doçura das coisas frágeis. Tinha eu com tudo que até então eu conhecia sobre mim.
Depois que eu parti (e foi mesmo para melhor), ele quis saber se já havia um novo amor. Há, mas eu não disse. Ele não entenderia. Meu novo amor é essa mulher desfigurada que me encara diante do espelho. Uma quase estranha, que eu tenho me dedicado a conhecer, compreender, respeitar e a gostar. Isso, é claro, quando ela não fica me lembrando que eu fracassei de novo, quando não esfrega na minha cara as cicatrizes que ganhou por minha causa. É doloroso ter de olhar pra ela. Mesmo assim eu olho. Todos os dias.
Nos dias bons, quando eu coloco um olhar mais demorado sobre ela, vejo-a através das marcas e das perfurações impossíveis de retocar. Algumas vezes consigo até ver uma certa beleza nessa mulher que restou. Foi tanto o que ela perdeu que ficou mais leve. Mais simples. Mais ela.
Desde que eu fui embora, nunca mais estive inteira. Quando me olho no espelho só enxergo uma parte de mim, mas essa parte, a que ficou, eu amo profundamente.
Roberta Simoni


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Ninguém muda ninguém

O sofrimento que sentimos por ver alguém cavando o seu próprio buraco sem poder resgatá-lo é muito difícil. Ninguém gosta de se sentir impotente. Não raramente as pessoas mais próximas de nós são as que menos nos ouvem.

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Nunca vi coisa melhor para nos ensinar sobre a fragilidade e impotência que temos perante a vida: A tentativa de mudar alguém. Não existe regra, mas na maioria das vezes nos esforçamos para mudar e tentar melhorar a vida das pessoas pelas quais nutrimos um mínimo de afeto. Se estamos fazendo da forma errada ou não já é uma outra questão.
Poderíamos abandonar a pessoa na primeira tentativa (assim como fazemos com quem não gostamos), mas não conseguimos. Procuramos as mais diversas alternativas. Apelamos para Deus, para psicólogos, médicos, familiares e até para o cachorro, caso ele aparente ter uma solução para resolver o problema.
E a cada tentativa, uma frustração nova. Novamente digo: Nós nos frustramos pois existe afeto envolvido. Você pode estar pensando que não acredito na mudança do ser humano. Acredito sim. Primeiramente numa mudança individual, no tempo dele, isto se ele enxergar e quiser mudar. Pessoas são influenciadas todos os dias para serem o que o “sistema” quer que elas sejam, inclusive se realizam nessa tarefa, mas, no fim das contas, a escolha passa pelo indivíduo, seja ela inconsciente ou não.

O sofrimento que sentimos por ver alguém cavando o seu próprio buraco sem poder resgatá-lo é muito difícil. Ninguém gosta de se sentir impotente. Não raramente as pessoas mais próximas de nós são as que menos nos ouvem. Acho que é daí que nasceu o dito popular “Santo de casa não faz milagre”. Então, decidimos desistir, mas ao mesmo tempo não desejamos que desistam da gente. É muito doloroso quando não há mais expectativa por parte do outro de que podemos mudar para melhor.
Mas existe um outro lado, muitas vezes obscuro, que nos esquecemos de pensar. Queremos que o outro seja aquilo que está no nosso imaginário ideal. Atropelamos o outro com a nossa vontade narcísica, nos esquecendo que ele também tem vontade e vida própria, inclusive para se enterrar sozinho, se assim desejar.
A psicanalista Melanie Klein criou um conceito que ela chamou de reparação maníaca. A grosso modo, esse tipo de reparação significa que tentamos consertar algumas coisas dentro da gente e no outro, não necessariamente por amor genuíno ou altruísmo, mas por um forte sentimento de culpa. Por estarmos “devendo no cartório”, tentamos consertar outras tantas coisas por aí. É claro que nem toda reparação é maníaca, mas na maioria das vezes não percebemos, por isso mesmo que a terapia pessoal ajuda e muito a entender o porquê fazemos e como fazemos essas reparações.
Se por um lado temos que respeitar os limites e o tempo do outro, também temos que entender o nosso. Você também pode (se assim desejar), se afastar física ou emocionalmente de quem lhe faz mal ou nunca muda, se essa falta de mudança te machuca e consome toda a sua energia. Às vezes, o tempo de mudança do outro não se encontra com o tempo da nossa mudança. Por isso presenciamos e sentimos os (des)encontros e os (des)ajustes da vida. As separações conjugais, os desentendimentos familiares e os términos de amizades também nascem dessa mesma fonte.
Podemos, sim, ser ambiente e espaço de influência e mudança de alguém. Mas a mudança em si, não está em nossas mãos. Ninguém muda ninguém.
Se puder, caminhe para ajudar quem você gosta, até onde seu corpo suportar. Porém, se caminhar demais e ultrapassar seus limites, seus pés se encherão de bolhas e você não conseguirá nem colocar os seus sapatos, tampouco carregar o próprio corpo.


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