A maior casa do planeta era a casa da minha avó Cícera, no bairro da Várzea.
Tinha milhares de hectares, um riacho passava no meio do quintal, havia
galinhas, patos, cachorros... isto sem falar de uma infinidade de insetos de
todas as cores e formas, a desafiar as minhas habilidades de caçador e, devo
confessar, de médico legista. Como eu ficava feliz de ir pra lá. Quando meus
pais viajavam e iam colocando os quatro filhos cada um na casa de um parente, eu
já tinha destino certo. Mas assumo que nem era pela casa propriamente, era pelo
quintal. Vovó precisava me chamar gritando para entrar e almoçar, pois eu não
queria descer das árvores. Pra quê comer feijão e arroz se tem pitanga, jambo,
banana, coco verde, mamão e manga... muita manga?
Minha avó é um doce de pessoa, hoje com quase cem anos, ela sempre soube me
compreender. Sabia que eu queria me sujar, correr com os meus amigos, viver
aventuras. Ah! Também tenho saudades da Barraca de Viana, onde eu podia comprar
o que quisesse só dizendo que era filho de Hélio... Hélio de Seu Olegário.
Quantas tardes sem fim passei entre aquele quintal e o campinho de futebol que
ficava lá pras bandas da casa de Tia Lenira. Havia dois mundos imensos, um ao
meu redor, outro dentro de mim, morando nas minhas fantasias e sonhos, que eram
aquecidos pela vida simples espalhada por toda parte.
Uma das coisas mais tristes em crescer é que os nossos mundos vão diminuindo. A
razão e a observação vão tomando o lugar do olhar criativo, capaz de inventar o
cenário no próprio ato de enxergar. Nós vamos avançando na vida e nos tornamos
menores na capacidade de apreciar pequenas experiências. Com o tempo vamos
ficando tímidos e insensíveis. Não dá mais vontade de correr atrás de uma bolha
de sabão e de voar, se for preciso, para alcançá-la a trinta ou quarenta metros
do chão. Vai batendo aquela preguiça de enfrentar piratas e bandidos de todos os
tipos, armado unicamente com um pedaço de cabo de vassoura, partido
especialmente para se converter em uma espada, com poderes mágicos de fazer
desintegrar o adversário com o mais leve toque. Tudo vai ficando tão real... tão
pobre.
Eu trocaria sem pestanejar uma semana de adulto por uma tarde de criança. Quando
eu era pequeno planejava que quando ficasse grande e tivesse meus filhos eu iria
brincar o dia inteiro com eles, mas não dá. Agora eu sou adulto e adulto é cego
e surdo. É incapaz de perceber a diferença entre uma caixa de fósforos e um
edifício repleto de soldados alemães que precisamos derrotar com um exército de
tampas de garrafa. Como eu não consigo ouvir o que dizem as bonecas de Thainá e
que ela escuta tão claramente que é até capaz de pedir pra elas falarem mais
baixo “porque painho está estudando”? Estou perdido! Sou irremediavelmente
adulto.
Hoje, lamentavelmente, vou pouco à casa de minha avó. Talvez pelo desconforto de
ver um quintal, comparativamente, tão pequeno. Lembro de ter perguntado a meu
pai se tinham vendido parte do terreno. E ele, como se adivinhasse meus
pensamentos, respondeu que não, que aquele quintal era do mesmo tamanho desde o
tempo em que ele mesmo era menino. Mas o fato é que ele foi mais criança do que
eu naquele lugar, e, quem sabe por isso, tenha absorvido mais dos seus
encantamentos. Eu já era adulto aos 14 e meu pai uma criança aos 40. Há muito
dele dentro de mim, mas é como se eu não pudesse deixá-lo fluir, sob o risco de
fazer traquinagens demais.
Um dia ainda vou ter coragem de parar o meu carro no meio da chuva ao lado de um
grande e belo telhado de zinco, fazer descer Thiago e Thainá e vou tomar banho
bica com roupa e tudo ao lado deles. Não faz muito tempo que chamaram Claudicéia
na diretoria do colégio, porque Thiago tinha se molhado todo num fiozinho de
água que caía do telhado da escola. Ainda bem que foi Claudicéia, porque se
fosse eu tinha brigado com ele: “Thiago, isso é bica onde você tome banho meu
filho? Respeite a tradição da família e só tome banho em bica boa”!
Tão pouco já nos fez tão felizes. Tanto só nos tem permitido viver. Alguém aí
empina papagaio?
Com carinho,
Martorelli Dantas
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